O Procurador do Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso, Paulo Douglas Moraes,  foi entrevistado pelo repórter do Brasil Caminhoneiro, Murilo Carvalho, durante o debate sobre drogas.
Murilo Carvalho –  A pesquisa, feita há algum tempo na região de Rondonópolis, traz um quadro extremamente difÃcil e preocupante, o uso de drogas por caminhoneiros. O assunto deve ser estendido, também, a todo Brasil. Fale da pesquisa e por que foi feita?
Procurador Paulo Douglas – A pesquisa teve inÃcio por conta da denúncia de uma viúva de um motorista vivo. Uma pessoa que buscou a fiscalização do trabalho em Rondonópolis com um médico do trabalho e relatou que já não tinha marido, pois o perdeu para as drogas. Isso nos preocupou do ponto de vista trabalhista e social.
Testamos mais de 200 amostras de urina em dois momentos, em Rondonópolis e em Diamantino. As primeiras 100 amostras mostraram que 51% dos testados apresentaram resquÃcios de cocaÃna na urina.
Dentre eles, três estavam em estado de pré-overdose. Isso no volante de um caminhão. Fizemos questionários e constatamos que os motoristas usam a droga para suportar o excesso de jornada de trabalho.
Na segunda pesquisa, querÃamos verificar se a situação era atÃpica, uma surpresa. O Ãndice de recusa no fornecimento de urina reduziu, tendo em vista que os motoristas perceberam que o interesse do Ministério Público e da Fiscalização do Trabalho da PolÃcia Rodoviária Federal (PRF) era, exatamente, preservar a saúde e a dignidade desse trabalhador.
Então, ante essa aceitação no fornecimento da urina, constatamos que o número de motoristas trafegando em estado de pré-overdose quintuplicou em Diamantino. TÃnhamos 15%, 15 de 100, de motoristas no estado de pré-overdose.
Essa é uma situação séria e que o Brasil tem que enfrentar. E vem, digamos assim, suportando esse enfrentamento de maneira escandalosa.
O Executivo e, agora, principalmente depois do veto da Lei do Controle do Tempo de Direção, o presidente em exercÃcio demonstraram claramente que o Brasil fez a opção de desenvolvimento calcada na exploração desumana do trabalhador motorista.
A pesquisa, na verdade, vem mostrar essa chaga que envolve o trabalhador motorista. É importante colocar que a sociedade deve perceber que está em risco.
Todo mundo é usuário das rodovias do paÃs. Ou seja, estamos colocando a vida de motoristas e usuários em risco para garantir um lucro, um lucro astronômico, de um pequeno segmento da sociedade, das transportadoras e principalmente das embarcadoras, que, na sua grande maioria, são grandes empresas multinacionais que se beneficiam desse trabalho degradante.
Conseguimos colocar um produto no mercado externo a um preço teoricamente acessÃvel, mas o custo é absurdo. São mais de 4 mil vidas, segundo dados da PRF, que se perdem ano-a-ano – 45% disso em acidentes com caminhões.
Murilo Carvalho – O grande problema que enfrentamos é: como resolver essa questão? Por que o caminhoneiro está usando uma droga para ficar acordado mais tempo? Aà entra, de fato, outra questão econômica. A necessidade do caminhoneiro de ganhar um pouco mais no dia-a-dia. Então, na verdade, ele é um usuário de drogas diferente dos outros. Não é verdade? Ele não as usa para se divertir, como faz a maioria dos usuários de cocaÃna. Ele as usa como trabalhador. E isso é um problema mais sério ainda. Não é verdade?
Procurador Paulo Douglas – Sem dúvida. O uso está associado a uma necessidade de trabalhar. E por que se trabalha tanto? Porque nós temos uma combinação, com relação ao segmento, bastante perversa. O pagamento comissionado, feito por fora e sem entrar na folha de pagamento, e a baixa remuneração fixa.
Então, para ter uma remuneração adequada, o cidadão tem que se submeter a jornadas excessivas. Para cumpri-las, o motorista vem lançando mão do uso de drogas. Como resolver?
A comunidade européia, os EUA, a Austrália, o mundo inteiro já resolveu. Mas o regramento europeu chama mais atenção, pois diz que, quando estabelecida a modalidade de remuneração que estimule a violação da limitação de jornada e tempo de direção, essa modalidade se torna ilÃcita.
Isso significa que o pagamento da comissão por comissão seria, se estivéssemos na Europa, ilÃcito. Por quê? Porque essa modalidade estimula essa violação toda. Nós ainda temos um agravante. Esse pagamento, na maioria das vezes, é feito por fora.
Significa dizer que, quando o motorista morre, a carga e o veÃculo estão segurados. Mas a famÃlia do motorista passa a receber uma pensão baseada no salário formal do motorista que é infinitamente menor do que aquele que ele aufere se submetendo à s jornadas extenuantes.
Então, qual é a solução? A solução é limitar jornadas e pagar uma remuneração fixa e digna para o profissional. Eu costumo dizer que o motorista é um profissional raro e tem que ser, por ser raro, um profissional caro.
Você não encontra alguém com CNH categoria E na esquina. Não é qualquer um que consegue manobrar um bitrem, uma carreta.
Então, me parece que o profissional motorista tem de tomar consciência da sua importância no contexto brasileiro e lutar por uma remuneração fixa e digna para que trabalhe como qualquer outro trabalhador tem direito. Dentro de limites razoáveis e compatÃveis com a existência humana.
Olha, sou motorista profissional há 17 anos. Desde os 18 anos trabalho como motorista. Sempre quis ser um caminhoneiro e tenho amor pela profissão. O que vejo hoje é que muitos motoristas optam pela profissão não pelo amor, mas pelo dinheiro, tendo em vista de que não é obrigado a ter uma escolaridade e nem certa educação obrigatória por assim dizer. Muitos não passam por uma escolinha ou fazem algum tipo de curso para se especializar profissionalmente. As transportadoras, muitas vezes por não ter profissionais disponÃveis, pagam para alguns tirarem a CNH E. Alguns nunca entraram em um caminhão, ou seja, não tem experiência na profissão. É claro que algumas empresas oferecem um treinamento para que depois o motorista saia com caminhão, mas a maioria não tem noção nenhuma. É aà que se submetem ao uso de drogas, rebites e outras coisas mais. Mas eu pergunto por que os nossos governantes não fazem nada? Este tipo de questão prejudica a nós, profissionais, por que não nos envolvemos com esse tipo de coisa e somos discriminados. Como não usamos e nem tomamos droga alguma, sofremos discriminação por parte dos empregadores. Eles dizem que fulano e sicrano apresentam mais rendimento (“rodam mais”) à s custas de drogas. Deixo aqui minha sincera opinião e indignação por que muitos perdem a vida e até matam pessoas que não tem nada com isso. Deixam pais e filhos órfãos. Nossos governantes, sabendo do problema, nada fazem para reverter esta situação. Agradeço o espaço.
Apos de ler a reportagem do Brasil camionheiro sobre motorista e uso das drogas. Eu sugeriria de imediato a nivel nacional que os camionheiros procurassem suas entidades de classe nos seus estados para pedir aos seus representantes para se adotar providencias junto às autoridades competentes deste pais chamado Brasil.
É muito difÃcil o trabalhador motorista se mobilizar em favor desta causa nobre, que é a questão de salário digno, pois a dimensão do paÃs é muito grande, além do trabalhador sofrer retaliações por parte dos empresários, muitas vezes ficando sem ter como sustentar sua famÃlia. Ao meu ver, é de muita importância a interferência do ministério público a nÃvel federal, já que os sindicatos existentes não tomam providencias por não ser do interesse deles. Além do motorista do transporte de carga, o profissional do transporte rodoviário de passageiros também sofre grande jornada de trabalho e baixa remuneração.